10 de novembro de 2013

Futuro

Cenam e Usip têm 135 fugas desde agosto e vizinhos vivem com medo.
Justiça diz que adolescentes do Cenam devem ser transferidos.
Internos do Cenam fogem e libertam adolescentes na Usip em Aracaju.



"os agentes socioeducativos, que há quase 100 dias estão em greve" 
"Somente no período entre 5 de agosto a 29 de outubro 130 adolescentes fugiram das duas unidades" 
"Dois agentes de segurança ficaram feridos"


Imagem: WeHeartIt

Notícias de fugas do Centro de Atendimento ao Menor (Cenam) e da Unidade de Internação Provisória (Usip), em Aracaju, são corriqueiras. Eu moro na vizinhança e já acordei no meio da noite com os helicópteros da polícia; e já fiquei presa no trânsito quando a avenida foi interditada por causa de uma rebelião.

A gente meio que se acostumou a fechar os olhos e rezar para não estar próximo em algum momento de tensão. 

Ontem, eu estava sentada na calçada de frente ao condomínio, com minha mãe. A mercearia da esquina estava aberta, as barraquinhas de comida a todo vapor. Comia M&Ms e falava sobre qualquer besteira, próxima a uma esquina particularmente a meia luz. Um começo de noite do sábado extremamente normal.

Do nada, bem ao meu lado, surgi um pequeno grupo de garotos usando apenas bermudas laranja-berrante escrito em letras brancas e garrafais: CENAN. 

Pulei do meu banco por puro reflexo e agarrei o braço da minha mãe. Talvez eles tenham se assutado com o movimento brusco, não sei. O fato é que continuaram caminhando, um tanto ariscos, rua acima. Passaram por incontáveis pessoas que simplesmente olhavam umas para as outras sem fazer ideia do que fazer.

Não é difícil imaginar que passei a noite em claro. Não pelo susto, não pela indignação, não por qualquer motivo "comum". Passei a noite pensando qual o futuro desses 150 meninos foragidos.

Lembrei dos meninos do Pintando o Se7e que foram resgatados de suas famílias negligentes e livram-se de, possivelmente, um futuro semelhante. Lembrei da sorte que temos ao ter um caminho tão fácil. Pensei no medo que vi nos olhos de alguns e na revolta que vi em outros.

Sei diferenciar perfeitamente o rosto de cada um e imagino onde estão nesse momento. Voltaram para casa? Estão na rua? Tem o que comer? Será que um dia conseguirão voltar a estudar?

Eu - muito particularmente - penso que a discussão não deve ser sobre como eles fugiram e continuarão a fugir e sim em como essas crianças e adolescentes chegaram a uma situação tão extrema: São foragidos da polícia aos 14 ou 15 anos.

O que eu fazia quando tinha 14 anos? O que você fazia quando tinha 14 anos?

A esse ponto eu não faço ideia do que o Brasil precisa, não tenho mais energia para discutir sempre a mesma coisa, nem paciência para viver com medo nas ruas.

Apenas digo que poderia ser o filho de qualquer um de nós fugindo da cadeia. Pode ser qualquer um de nós assaltado na porta do banco. E, ao passo que vamos, eles são o futuro do nosso País.