25 de maio de 2014

"Ser mulher no Brasil é duro"

"Vivemos em uma sociedade que ensina a mulher a ter cuidado para não ser violentada em vez de ensinar os homens a não violentar." - Imagem weheartit

Tenho 20 anos nas costas e uns oito anos andando de ônibus, sem contar os anos acompanhados pela minha mãe. Já vi tudo quanto é maluquice dentro do coletivo: de baratas a bêbados, de briga de casal a assalto a mão armada. Já conheci muita gente legal e já tive medo de muitas outras.

Nessa vida inteira eu desenvolvi hábitos malucos: não andar de salto porque eu vou ficar em pé por horas sacolejando entre desconhecidos; ou esconder documentos, celular e dinheiro entre as dobras das roupas por medo de assalto; e, principalmente, analisar todos os detalhes da minha roupa para não mostrar o sutiã, ou para a saia não ser curta demais, ou para não ser vulgar aos olhos dos outros.

Outro dia, um sábado quente como inferno, minha neurose tirou um tempo para pegar um bronze e eu esqueci de tomar cuidado com minha roupa, porque convenhamos, qualquer coisa que acontece é culpa da minha roupa provocativa (#sqn). Assim, fui para o curso de inglês feliz e contente com meus cabelos ao vento e um vestido soltinho e florido.

Na volta para casa, resignada com o ônibus lotado que ia ter que encarar, azul de fome e morta de cansaço, entrei no primeiro ônibus que parou na minha frente: Marcos Freire – Dia, linha 040, Aracaju – Sergipe. Tudo normal, comum e repetitivo até alguém encostar em mim. Um homem começou a se esfregar em mim na frente de todo mundo e quando percebi estava entre dois homens e sem ter como sair do local que eu estava

Todo mundo no ônibus notou a situação, todo mundo olhava para mim com cara de desprezo e pela forma como a situação continuou todos achavam que eu estava gostando daquilo, afinal eu estava com um vestido curto e amarelo! Eu fiquei apavorada, entrei em pânico e não conseguia me mexer, gritar ou fazer qualquer coisa. Estava com medo de me machucarem, estava com vergonha de todo mundo me olhar como se eu fosse uma vagabunda. Estava humilhada ao ponto de perder qualquer reação. A situação só acabou quando um adolescente com farda de escola me puxou pela mão e se colocou entre os homens. 

Todas as vezes que li ou ouvi relatos de uma situação semelhante eu pensava: “Se fosse comigo, eu ia gritar ou bater ou fazer qualquer coisa”. Mas naquela hora a única coisa que eu senti foi nojo deles e vergonha de estar naquela situação. Acho que por uns dez minutos eu também sentir culpa, porque se eu tivesse de calça comprida e t-shirt, nada disso teria acontecido.

Agora eu sei que mesmo se eu tivesse de burca ou se tivesse gritado a plenos pulmões aquilo poderia ter acontecido e que não é culpa minha. Nada de “mais grave” aconteceu, ainda bem. Uma semana depois, estou sentada sozinha no meu quarto, escrevendo e Sem Acreditar na total falta de respeito e humanidade da nossa sociedade.

A frase "Ser mulher no Brasil é duro", que dá título a esse texto, foi escrita por uma amiga minha no Facebook. Ela passou pela mesma situação que eu, na mesma semana e no mesmo ônibus. Eu não acho que ser mulher NO BRASIL seja duro. É duro viver em qualquer grupo social onde é normal expressões como "Segure suas cabritas que meu bode tá solto" são ditas por Pais orgulhosos e seus filhos homens pegadores; É duro viver em qualquer grupo social onde a sua roupa justifica qualquer abuso sexual ou verbal. É duro viver em qualquer grupo social onde é normal ser chamada de gostosa na rua.

E caminhamos assim: ensinando mulheres a se esconder e esquecendo de ensinar nossas crianças o respeito e a igualdade que deveria ser pregado em todo mundo.



Esse assédio foi denunciado na campanha Chega de fiu fiu. Organizada pelo ThinkOlga.com e diz: "Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. A Chega de Fiu Fiu foi criada para lutar contra o assédio sexual em locais públicos."